A manufatura inteligente reduz drasticamente a arritmia dos processos de produção atuais, trazendo benefícios concretos para a rentabilidade e competitividade das empresas

*Por Christian Dihlmann | Fotos: iStockphoto

Há muitos motivos para estarmos curiosos e tratarmos a Indústria 4.0 – I4.0 ou 4ª Revolução Industrial ou ainda Manufatura Avançada com a atenção que o tema requer. Não obstante estar ele permeando toda a cadeia de geração de negócios, ainda pouco se discute fora dos ambientes fabris de grandes corporações e das instituições que se posicionam na vanguarda do ensino e da pesquisa.

É importante destacar que, apesar de ser intitulada como tal, não se trata de uma revolução, mas sim da evolução dos processos, com a consequente aplicação de tecnologias e metodologias desenvolvidas ao longo das últimas três décadas. Também em função da abrangência conceitual, não é uma aplicação exclusiva da indústria, mas sim de todo o modelo econômico de negócio mundial, incorporando, além das operações fabris, as relações de comércio, serviços e agronegócio.

Outro mito é o entendimento míope de que se trata de um sistema difícil de operar. O correto é classificá-lo com um sistema complexo, composto de muitas atividades interconectadas, com grande volume de informações e dados e considerável nível de trabalho para sua adoção. É um conjunto de tecnologias e metodologias entrelaçadas que, por sua característica intrínseca, requer uma grande capacidade simultânea de processamento, só alcançada nos últimos anos com a evolução exponencial dos computadores.

O modelo produtivo anterior à revolução industrial do fim do século XVIII era baseado na produção artesanal, entretanto com baixa eficiência por tratar-se de operações manuais e dependentes do ser humano e seu “humor” momentâneo. Era praticamente impossível produzir dois produtos iguais. A partir da adoção da produção mecanizada atingiu-se a maturidade desejada para a época, viabilizando produções em massa de produtos com melhor qualidade e a baixo custo. Avança-se mais dois séculos e a individualidade do consumidor requer produtos personalizados, com qualidade e a preços justos. Nesse período a tecnologia e os meios de produção desenvolveram-se de maneira tão robusta e forte que passaram a validar o novo modelo comportamental humano. Agora sim, com viabilidade produtiva e mercado demandante, o céu é o limite. O consultor Paulo Roberto dos Santos define, em palavras sábias, essa nova “onda”, mencionando: “o que basicamente norteia a Indústria 4.0 é que o consumidor passa a influenciar a cadeia produtiva” [1].

A abordagem sobre a participação do Brasil nesse modelo é pertinente, considerando que o País atravessa um período relativamente longo de economia desacelerada, ocasionando a redução na lucratividade das empresas e, por consequência, o corte nas contas de investimento de ativos. Especificamente na indústria, a renovação do parque fabril tem atingido os menores níveis da história. Isso torna a produção menos eficiente e a perda de competitividade é imediata. Ou seja, a hora de “mexer” não pode mais ser postergada.

 

Entender para aplicar

Megatendências das tecnologias-chave para transformação da produção [2]

Megatendências das tecnologias-chave para transformação da produção [2]

O Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum) resolveu fazer uma chamada em prol de uma ação para acabar com a estagnação da produtividade que o mundo está vivenciando e enfrentar os desafios mais importantes – tais como a mudança climática, escassez de recursos e uma força de trabalho envelhecida. Sugere seis ações para garantir que a 4ª Revolução Industrial voltada à fabricação proporcione o máximo de benefícios positivos para a sociedade. Elas são baseadas nos princípios de: melhorar a qualificação do operador, ao invés de substituí-lo; investir na capacidade de pensar e criar e na aprendizagem continuada; difundir tecnologias ao longo de áreas geográficas e incluir as Pequenas e Micro Empresas – PME; proteger as organizações e a sociedade através da segurança cibernética; colaborar em plataformas abertas para a 4ª Revolução Industrial e manipular dados com cuidado e enfrentar o desafio da mudança climática utilizando tecnologias da 4ª Revolução Industrial. A responsabilidade por estas ações deve ser tanto do setor público como do privado [2].

O mesmo Fórum relaciona as megatendências das tecnologias-chave que determinam o impacto no âmbito da produção inteligente, definindo o modelo como a integração entre a inteligência, a automação flexível e a conectividade.

 

Digitalização como solução

É preciso desmistificar o entendimento sobre a I4.0. Não necessariamente há investimentos de grande monta nas fases iniciais. Ao contrário, as primeiras etapas precisam ser mais teóricas. É necessário desenvolver e adotar um Plano Diretor para Digitalização – PDD da empresa.

A I4.0 é composta de alguns conceitos como interoperabilidade, virtualização, descentralização, informações em tempo real, computação em nuvem e modularização. O nível de imersão na indústria 4.0 depende do tipo de indústria e do tamanho da mesma, mas pode ir de mera automatização de processos até a transformação total em uma fábrica inteligente.

Entretanto, a definição de digitalização precisa ser entendida em todo seu contexto para evitar a mera interpretação de que se trata de cadastrar os produtos em um sistema informatizado. Ela é apenas uma pequena parte do universo da Indústria 4.0, e comporta a digitalização dos produtos, dos processos e dos equipamentos. Após o estudo e planejamento com o PDD, é o passo seguinte para estruturar uma empresa a galgar esse novo patamar tecnológico e é imprescindível para que as análises de dados sejam precisas e apontem o rumo certo dos investimentos.

Essa fase compreende a sensorização dos meios de manufatura para geração de dados ricos e confiáveis o suficiente para dominar o conhecimento sobre a empresa e permitir que as decisões futuras sejam procedidas de forma inteligente. Um dos grandes gargalos é a compilação e tratamento de toda a massa de dados adquirida combinada com o conhecimento sobre clientes, fornecedores e entidades envolvidas na geração de valor do produto ou serviço oferecido. A limitação das competências e habilidades dos grupos de trabalho será um dos principais obstáculos a ser superados na evolução da análise de dados.

 

Desafios à frente

A partir de um cenário pouco promissor vivenciado nos últimos anos registrou-se um grande acúmulo de prejuízos no âmbito da indústria nacional, repercutindo diretamente no preço dos produtos para o consumidor e implicando dorsalmente no baixo nível de investimentos com consequente redução de competitividade. Em período de incerteza, a naturalidade aponta para retenção dos ativos financeiros em detrimento dos ativos produtivos. Forma-se assim um represamento na evolução da produtividade.

O desenvolvimento da Indústria 4.0 no País traduz-se em uma alternativa importante para contribuir com a solução desse problema. Alguns grandes desafios que se mostram à frente, em diversas vertentes, tanto no setor público quanto privado, passam por:

 

– Âmbito do País: estabelecimento de uma política industrial de Estado voltada ao fomento da renovação, evolução e inovação do parque fabril brasileiro; adoção de posturas de fomento para a utilização das ferramentas, tanto no serviço público quanto nas operações ativadoras da economia do País; simplificação do modelo tributário; redução na carga tributária e eficácia no sistema de cobrança de impostos, viável com as ferramentas computacionais, permitindo uma melhor distribuição de impostos e evitando a sonegação; investimento maciço em educação e capacitação profissional, tanto técnica quanto gerencial (empreendedorismo) com modelos formativos mais eficientes; realização de estudos comparativos da evolução da Indústria 4.0 de outros países relativamente ao Brasil; política para adoção escalonada em Micro Empreendedor Individual – MEI, Pequena e Micro Empresa – PME, empresa de médio e grande porte; implantação de infraestrutura digital de alta performance no País.

 

– Âmbito empresarial: conscientização dos empresários para o completo entendimento da lógica de operação e para a preparação do ambiente com vistas à implantação de ferramentas integradoras; autodiagnóstico para mapeamento do estágio atual da empresa frente a todas as “revoluções” – algumas empresas ainda não atingiram a Indústria 3.0; parcerias internacionais com investimento em pesquisa;  coragem de empreender e inovar; envolvimento de associações empresariais e sindicatos unidos formando a cultura inovadora; escolas privadas com novas metodologias de ensino e universidades corporativas; canalização de recursos financeiros para o aprendizado e adoção da nova tecnologia de forma rápida e consolidada; gestores precisam propor planos que instiguem mudanças em ambientes controlados com o intuito de alavancar novas formas de gerar valor para a companhia.

 

– Âmbito do desenvolvimento pessoal: adoção de comportamento humilde para reconhecimento de fraquezas; intensificação do aprendizado e aprofundamento do conhecimento; mindset diferenciado e aberto a novas tecnologias e modelos de trabalho; autoevolução da carreira profissional e geração de valor à profissão; entendimento do profissional 4.0 sobre onde deve se encaixar nesse novo mercado e onde buscar conhecimentos válidos para a área de atuação.

 

Oportunidades emergentes

De outro lado, superados os desafios, as possibilidades de geração de negócios são ampliadas vertiginosamente, em função de diversos fatores: novos modelos de negócios; melhor eficiência e eficácia dos sistemas operativos; maior inserção de valor nos produtos fabricados; serviços com maior rapidez e assertividade; elevada qualidade e precisão nas entregas prometidas; desenvolvimento de profissões com maior amplitude de conhecimento; atendimento personalizado do desejo de consumo; menores custos de performance dos equipamentos com consequente redução de manutenção; espaço para as startups; dentre outros.

 

Não pare de pensar

Com um pouco de criatividade e embasamento tecnológico, pode-se começar a pensar já na futura Indústria 5.0 e, quiçá, na Indústria 6.0. Arrisco sugerir que a I5.0 será baseada nas microfábricas, que me atrevo a intitular de home-factory, a regressão da indústria gigante para a produção caseira. O orgulho de ter uma empresa com milhares de profissionais será substituído pela esperteza de fabricar produtos personalizados com baixo custo e dentro do seu próprio quarto.

Ah, e a I6.0? Novamente não vejo como uma revolução, mas como evolução de tudo que vem sendo desenvolvido gradualmente ao longo de décadas. O comando por ondas cerebrais já tem algumas aplicações específicas e, em futuro não muito distante, sua abrangência será tão grande que diversos equipamentos, máquinas e sistemas serão controlados diretamente por métodos sensoriais. Quase um “produzir o pensamento”.

Por conta da facilidade de observar e controlar equipamentos através de dispositivos móveis, o chavão hoje é “a indústria na palma da mão” – the industry in the palm of your hand. Em futuro não muito distante, penso que o mote será “produção sem toque” – touchless production.

 

Compartilhar para evoluir

Considerando a raça humana como inteligente, superior e desenvolvida, é natural que o aprendizado seja incentivado e compartilhado por aqueles que estão um passo à frente. Nesse sentido, durante a realização do Encontro Anual do Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum), de 22 a 25 de janeiro deste ano em Davos, na Suíça, foi divulgada uma lista de empresas que estão conseguindo obter os melhores resultados na aplicação das novas tecnologias alinhadas com a Indústria 4.0. Estas empresas são consideradas “faróis da manufatura” (Manufacturing Lighthouses) e formarão uma rede mundial que já totaliza 16 fábricas, sendo nove localizadas na Europa, cinco na China, uma nos Estados Unidos e uma na Arábia Saudita. Servindo como referências para “iluminar” o caminho de outras indústrias uma vez que, segundo o Fórum Mundial, mais de 70% das empresas que investem em tecnologias como análise de big data, inteligência artificial ou impressão 3D não são capazes de levar os projetos para além da fase piloto.

As empresas selecionadas pelo Fórum Econômico Mundial e suas competências para comporem a lista estão apresentadas a seguir:

  1. Bayer, Divisão Farmacêuticos (Garbagnate, Itália): Soluções Digitais e aproveitamento de dados para melhorias significativas da produtividade;
  2. Bosch Automotive (Wuxi, China): Suporte ao aumento de produção;
  3. Haier (Qingdao, China): Modelo de customização em massa focado no usuário;
  4. Johnson & Johnson DePuy Synthes (Cork, Irlanda): Digital Twin orientada ao processo;
  5. Phoenix Contact (Bad Pyrmont and Blomberg, Alemanha): Digital Twin orientada ao cliente;
  6. Procter & Gamble (Rakona, República Checa): Sincronização de ponta a ponta;
  7. Schneider Electric (Le Vaudreuil, França): Fábrica inteligente e integrada;
  8. Siemens Industrial Automation Products (Chengdu, China): Plataforma de tecnologia totalmente integrada para produção flexível;
  9. Fast Radius with UPS (Chicago, EUA): Acelerando a inovação;
  10. BMW Group (Regensburg Plant, Alemanha): Plataforma customizada de Internet das Coisas;
  11. Danfoss, Compressores Comerciais (Tianjin, China): Sistema completo de rastreabilidade digital e ferramentas digitais;
  12. Foxconn (Shenzhen, China): Luzes apagadas na fábrica com Inteligência Artificial;
  13. Rold (Cerro Maggiore, Itália): Única média empresa do grupo. Uso de tecnologias da Indústria 4.0, como smart watches, prototipagem rápida e painéis digitais;
  14. Sandvik Coromant (Gimo, Suécia): Segmento digital para processos de produção;
  15. Saudi Aramco Uthmaniyah Gas Plant (Uthmaniyah, Arábia Saudita): Soluções de Advanced Analytics e Inteligência Artificial;
  16. Tata Steel (IJmuiden, Holanda): Academia de Análises Avançadas.

 

Rede de Faróis da Manufatura

Rede de Faróis da Manufatura [2]

 

Para ler a íntegra do material, disponível em inglês, Fourth Industrial Revolution: Beacons of Technology and Innovation in Manufacturing, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, acesse: https://www.weforum.org/whitepapers/fourth-industrial-revolution-beacons-of-technology-and-innovation-in-manufacturing.

Por fim, importante é entender que esse ciclo é real e está posto. Não há como desviar-se dele. Todos estamos (ou estaremos) inseridos nele e dele seremos parte. Ou acatamos a situação ou vamos ser engolidos pela concorrência, que certamente não ficará estagnada e estará à frente.

Acredito nessa proposta e estou certo de que contribuirá com o aumento da eficiência, competitividade e lucratividade das empresas, perpetuando-as em um mercado cada vez mais disputado.   

 

Referências

[1] Santos, P. R. dos; Ações empresariais na implementação da Avicultura 4.0. 35ª edição da Conferência FACTA WPSA Brasil 2018. Campinas, SP. Maio/2018.

[2] Leurent, H.; Boer, Enno de; Fourth Industrial Revolution: Beacons of Technology and Innovation in Manufacturing. Fórum Econômico Mundial. Davos, Suíça. 22 a 25/janeiro/2019.

 

Christian Dihlmann, Presidente da ABINFER

Christian Dihlmann, Presidente da ABINFER | Foto: Acervo pessoal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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